Durante décadas, a cena se repetiu em lavouras de diferentes tamanhos, o produtor aplicava fertilizante esperando que a planta aproveitasse ao máximo aqueles nutrientes, mas parte do investimento podia simplesmente desaparecer com a água da chuva, escorrer pelo solo e alcançar rios e aquíferos, até que pesquisadores brasileiros decidiram atacar justamente esse desperdício e começaram, em 2018, a trabalhar em uma ideia que parece estranha à primeira vista, transformar nutrientes agrícolas em um material semelhante ao vidro capaz de permanecer no solo e entregar alimento às plantas pouco a pouco.
O projeto avançou pelas mãos de pesquisadores ligados à USP de São Carlos e à Embrapa, que passaram a desenvolver uma formulação com fósforo, potássio, cálcio, silício, magnésio e boro, elementos submetidos a temperaturas próximas de 1.100 °C até formarem um material vítreo que depois é transformado em pequenas partículas, e a diferença está justamente no comportamento dessas partículas quando chegam à terra, porque em vez de liberar uma grande quantidade de nutrientes de uma só vez, elas podem fazer isso gradualmente.
Essa liberação controlada ataca um dos problemas mais antigos da adubação, a lixiviação, processo em que nutrientes são carregados pela água para camadas mais profundas do solo ou acabam chegando a cursos d’água, e quando isso acontece o agricultor perde parte do que aplicou enquanto o ambiente recebe uma carga de nutrientes que pode contribuir para fenômenos como a eutrofização de rios e reservatórios.
Mas transformar nutrientes em vidro criou outro problema, porque nitrogênio e enxofre, dois componentes importantes para muitas culturas, não suportam as temperaturas elevadas usadas na fabricação do material, então os pesquisadores precisaram encontrar outro caminho e passaram a estudar o encapsulamento desses elementos em biopolímeros, permitindo que eles sejam incorporados ao sistema sem atravessar diretamente a etapa mais quente da produção.
Os primeiros resultados ajudaram a transformar uma ideia de laboratório em uma tecnologia agrícola com potencial prático, testes in vitro e em estufas indicaram desempenho agronômico superior ao fertilizante NPK convencional nas condições avaliadas, enquanto ensaios ecotoxicológicos com sementes, entre elas alface e cebola, foram usados para verificar a segurança do material antes que qualquer discussão sobre aplicação em maior escala avançasse.
O detalhe que pode fazer diferença para quem vive da lavoura aparece somente depois dessa longa trajetória de testes, porque o fertilizante vítreo não foi pensado apenas para alimentar a planta, ele tenta fazer cada aplicação permanecer útil por mais tempo, reduzindo perdas e potencialmente diminuindo a necessidade de novas aplicações, uma combinação que pode significar menos passagem de máquinas pelo campo, menor desperdício de nutrientes e redução da pressão sobre rios e aquíferos.
Ainda existe uma distância entre uma tecnologia experimental e um produto presente em propriedades rurais pelo país, mas o caminho traçado desde 2018 mostra por que esse pequeno grânulo semelhante a vidro chamou atenção, pesquisadores pegaram um problema silencioso que acontece debaixo da terra e tentaram resolvê-lo justamente controlando o tempo, fazendo o fertilizante entregar seus nutrientes conforme eles deixam o material, em vez de colocar tudo no solo de uma única vez.
Com informações de G1 e Gazetadopovo.