Com a família na última lata da dieta e sem encontrar Aerolin, caminhoneiro cruza 3.700 km até o RS e entrega em mãos o que menino de 12 anos precisava para continuar o tratamento

Publicado por em Notícias dia | Atualizado em

A família já estava na última lata da alimentação especial de João Pedro, de 12 anos, e o medicamento que ele precisava havia desaparecido das farmácias no Rio Grande do Sul quando Wando Cleyson assumiu uma promessa simples de dizer e difícil de cumprir, sair de Teresina, no Piauí, atravessar cerca de 3.700 quilômetros de estrada em meio à mobilização pelas enchentes e chegar até Canoas com o remédio e a dieta que o menino não podia deixar de receber.

Wando partiu levando no caminhão alimentos, produtos de higiene e outras doações destinadas às vítimas da calamidade, mas entre caixas e mantimentos havia dois itens que transformavam aquela viagem em algo muito mais pessoal, a alimentação em pó usada exclusivamente por João Pedro e o Aerolin que a família já não conseguia encontrar no Sul, por isso cada quilômetro percorrido carregava também a urgência de uma mãe que esperava pela chegada do caminhoneiro.

Foram quatro dias na estrada entre Teresina e Canoas, com uma distância equivalente a atravessar boa parte do país, enquanto Danielly Evangelista acompanhava a situação dos filhos e administrava o que ainda restava da dieta especial de João Pedro, sabendo que a última lata estava terminando e que não havia margem para esperar muito mais.

A história do menino já era marcada por dificuldades muito antes das enchentes, João Pedro sofreu uma hemorragia cerebral quando tinha apenas seis dias de vida e ficou com danos neurológicos irreversíveis, condição que tornou necessária uma alimentação específica e cuidados permanentes, mais tarde ele e o irmão gêmeo, Pedro Inácio, também foram diagnosticados com bronquiolite obliterante após uma infecção hospitalar.

João Pedro sofreu hemorragia cerebral aos seis dias de vida, ficou com danos neurológicos e depende de alimentação especial.

Enquanto João Pedro depende de cuidados mais intensos, Pedro Inácio consegue se movimentar, falar e se alimentar, mas também enfrenta consequências respiratórias importantes e aguardava transplante de pulmão, procedimento previsto para ser realizado na Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre, o que já colocava a família em uma rotina constante de tratamentos, deslocamentos e preocupação antes mesmo de a enchente atingir o estado.

Foi nesse cenário que a falta do medicamento e da alimentação especial deixou de ser apenas mais um problema de abastecimento e passou a representar uma corrida contra o tempo, Danielly precisava encontrar uma saída e Wando decidiu que aquela entrega não ficaria perdida entre tantas outras doações que cruzavam o país naquele período.

A promessa feita à mãe era de que ele chegaria, e foi isso que sustentou a viagem até Canoas, onde o caminhoneiro finalmente encontrou a família depois dos quatro dias de estrada e entregou pessoalmente os produtos, encerrando um percurso de 3.700 quilômetros que havia começado como uma ação solidária e terminado como uma missão particular.

Danielly contou que já utilizava a última lata da dieta exclusiva do filho quando Wando chegou e também confirmou que o Aerolin não estava sendo encontrado no Rio Grande do Sul, enquanto o caminhoneiro afirmou que só percebeu completamente o peso da responsabilidade quando ficou diante das crianças e entendeu que aquilo que transportava não era apenas uma carga, mas algo essencial para a continuidade dos cuidados de João Pedro.

A viagem terminou sem cerimônia, sem recompensa e sem qualquer mudança no tamanho dos problemas enfrentados pela família, mas com aquilo que naquele momento mais importava dentro da casa de Danielly, a alimentação especial voltou a estar disponível, o medicamento finalmente chegou e a promessa feita ainda no Piauí foi cumprida depois de quatro dias de estrada.

Alan Correa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado, com foco em durabilidade e custo-benefício.