Após quase meio século entre circos e zoológico, elefanta Rana entra em caixa de aço de cinco toneladas, cruza 2.700 km pelo Brasil e encontra no Cerrado espaço para escolher onde caminhar
Durante quase meio século, Rana viveu sem escolher o próprio caminho, passou cerca de 40 anos em circos, outros sete em um zoológico ligado a um hotel e carregou desde a infância uma lesão que deixou o cotovelo esquerdo praticamente rígido, até que em dezembro de 2018 uma operação gigantesca começou a mudar sua história, a elefanta de aproximadamente 3,5 toneladas foi preparada para entrar em uma caixa de aço de cinco toneladas e seguir por milhares de quilômetros rumo a um lugar onde não haveria picadeiro, arquibancada ou um pequeno recinto cercado.
A preparação começou antes da estrada, porque transportar um animal daquele tamanho exigia acostumá-lo à caixa, reduzir o risco de pânico e permitir que tratadores e veterinários acompanhassem cada etapa, Rana precisava permanecer segura durante uma viagem que atravessaria boa parte do Brasil e colocaria à prova caminhão, estrutura, equipe e uma elefanta já marcada por décadas de cativeiro.

Quando o caminhão deixou Sergipe, começou uma jornada de aproximadamente 2.700 quilômetros até Mato Grosso, com participação da Polícia Rodoviária Federal na escolta, paradas para água e alimentação e velocidade reduzida em diferentes trechos, chegando a cerca de 20 km/h em pontos onde o peso do conjunto e as condições da estrada exigiam ainda mais cuidado.
Dentro da enorme estrutura metálica seguia uma elefanta que havia passado boa parte da vida entre ambientes controlados, depois dos anos de circo Rana viveu em uma instalação associada à Fazenda Boa Luz, onde seu espaço tinha cercas eletrificadas, poucas árvores e uma rotina limitada, cenário muito diferente daquele que a esperava na Chapada dos Guimarães.
Pouco mais de três dias depois da partida, o caminhão finalmente chegou ao Santuário de Elefantes Brasil, mas ainda faltava uma etapa delicada, a caixa de cinco toneladas precisou ser retirada do veículo com auxílio de guindastes e posicionada cuidadosamente no solo antes que Rana pudesse sair.
Depois de passar 40 anos em circos e outros sete em um zoológico, elefanta Rana de 3,5 toneladas atravessa 2.700 km dentro de uma caixa de aço e chega a santuário com mais de mil hectares
Era 21 de dezembro de 2018 quando a porta daquela caixa se abriu e, do outro lado, Rana encontrou uma propriedade com mais de mil hectares de Cerrado, grandes áreas de vegetação, lama, sombra e espaço para caminhar, além da possibilidade de conviver com outras elefantas depois de longos períodos praticamente isolada.
A mudança começou a aparecer também no comportamento, segundo os responsáveis pelo santuário, Rana passou a vocalizar mais e demonstrar interesse pelas outras moradoras poucos dias depois de chegar, criando vínculos e ganhando posteriormente a fama de receber novas elefantas e adaptar sua aproximação ao comportamento de cada uma.
A liberdade não apagou as marcas acumuladas durante décadas, a antiga lesão no membro dianteiro esquerdo continua afetando seus movimentos e exige cuidados constantes, por isso Rana participa de tratamentos diários e coloca voluntariamente as patas dianteiras em água morna durante cerca de 20 minutos para auxiliar nos cuidados veterinários.
Em 2026, quase oito anos depois daquela travessia, Rana continua vivendo no Santuário de Elefantes Brasil e é considerada a elefanta mais velha da instituição, com idade estimada em pelo menos 65 anos, enquanto grande parte de sua rotina acontece entre caminhadas, vegetação e o convívio com outras elefantas.
Ninguém consegue reconstruir completamente todos os capítulos de sua vida, existem lacunas sobre seu nascimento, sua idade exata e alguns períodos do passado, mas uma parte da história ficou registrada com precisão, depois de cerca de 40 anos em circos, sete em um zoológico e uma viagem de 2.700 quilômetros dentro de uma caixa de aço, Rana atravessou uma porta em Mato Grosso e encontrou um espaço onde finalmente podia escolher para onde caminhar.
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